História da Atlântida – parte I
A Atlântida no mundo - imediatamente antes do ano 1 dFA
Até o ano 1 dFA (depois da Fundação da Atlântida)
”Os deuses lançaram a sorte e dividiram toda a terra em lotes, maiores ou menores. Instituíram em sua própria honra cultos e sacrifícios. Foi assim que Posêidon, tendo recebido como quinhão a ilha de Atlântida, instalou, em certo lugar desta ilha, os filhos que engendrara de uma mortal. Perto do mar, mas na altura do centro da ilha, havia uma planície, a mais bela, dizia-se, de todas as planícies e a mais fértil. E, perto dela, a aproximadamente 10 km do seu meio, havia uma montanha de altitude mediana. Sobre esta montanha habitava então um dos homens que, nesse país, eram originalmente nascidos da terra. Seu nome era Evenor, e vivia com uma mulher, Leucipa.
Deram nascimento a uma única filha, Clito. A jovem atingira a idade núbil quando seu pai e sua mãe morreram. Posêidon a desejou e uniu-se a ela. Ora, os altos em que ela vivia o deus fortificou e isolou em círculo. Para tanto, fez um cercado de mar e terra, pequenos e grandes círculos, uns em redor de outros. Fez dois de terra, três de mar, arredondando-os, por assim dizer, começando a partir do meio da ilha, do qual estavam sempre a igual distância. Assim, eram infranqueáveis, pois não haviam então nem batéis nem navegação. Foi o próprio Posêidon que embelezou a ilha central, no que não teve dificuldade, sendo um deus. Fez jorrar de sob o solo duas fontes d’água: uma quente, outra fria, e fez crescer sobre a terra plantas nutritivas de toda espécie, em abundância”.
Assim diz a lenda, na qual muitos atlantes ainda acreditam. Os eruditos, porém, têm outra versão dos fatos, apoiada em indícios arqueológicos, na análise de velhos textos e no testemunho de clarividentes. Talvez seja apenas um outro mito, este mais ao gosto da elite intelectualizada de Atlântida. Porém, embora haja muitas controvérsias em relação à cronologia e aos detalhes, o quadro geral é mais ou menos consensual.
Em tempos imemoriais, muitos milênios antes do início da cronologia atlante, surgiu em Lemúria a primeira civilização, uma civilização multirracial e multicultural, em que homens, ramoahais, titãs, gigantes, duendes, duendes marinhos, anões e reptóides coexistiam em paz. Essa cultura desenvolveu a navegação e estendeu-se gradualmente por toda a zona tropical do planeta, incluindo o sul da ilha a que os lemurianos deram o nome de Ruta e depois também foi conhecida como Atlântida. Os lemurianos jamais possuíram um governo centralizado, mas certos grandes santuários, dos quais o de Muror chegaria a ser o mais importante, constituíam um foco de peregrinação e um local de reunião para discutir assuntos de interesse comum e trocar idéias e produtos.
Numa segunda etapa, a cultura começou a se difundir da Lemúria para as zonas temperadas e frias. Nessas regiões, porém, as diferenças no meio ambiente e na composição da população não permitiram a simples reprodução da civilização nascida nos trópicos. Essas regiões desenvolveram culturas próprias e novas crenças, dando origem a novas civilizações.
Nas estepes do Norte, surgiu, no lombo dos cavalos, a civilização dos nômades helcarianos que fundou um grande santuário numa ilha do mar interior de Helcar, chamado Shamballa, com função semelhante à dos centros de peregrinação lemurianos. Nas terras altas do Ocidente, surgiu a majestosa cultura senzar, cujo principal santuário seria Tiahuanaco.
Nas costas dos mares frios setentrionais nasceu a cultura dos navegadores hiperbóreos, que criou seu centro cerimonial na distante ilha de Thule e parecem ter sido os primeiros a povoar o norte da ilha de Ruta. Ao sul dos domínios hiperbóreos surgiu a sensual e orgulhosa cultura fomori, centralizada no santuário de Gades, a partir do qual foi povoada a até então desabitada região oriental da ilha (apesar da crença popular garantir que, pelo contrário, foram os atlantes de Eumelos que fundaram Gades).
Porém, cerca de mil anos antes do início da cronologia oficial atlante, numa região chamada Acádia, em torno de um santuário secundário e regional chamado Babel, ponto de encontro entre as culturas lemuriana, helcariana e hiperbórea, surgiu algo novo: a propriedade privada, que no início teve provavelmente um caráter mais tribal do que pessoal. As dificuldades geradas pela coexistência entre culturas cujos valores, religiões e costumes eram diferentes exigiram, segundo os eruditos, uma clara demarcação entre as terras e os rebanhos que pertenciam a cada grupo, de uma forma que antes não havia sido julgada necessária.
Seja como for, algumas tribos acabaram acumulando mais riqueza que outras. Dentro das tribos, algumas famílias se tornaram mais ricas que as outras. Os chefes das famílias mais ricas descobriram como impor sua vontade aos demais membros de sua família regulando o uso da propriedade familiar. Depois, como usar a propriedade familiar para se impor ao resto da tribo, exigindo serviços pessoais e parte das colheitas em troca do direito de cultivar suas terras.
Acumulou grãos e metais em seus silos para os anos ruins, durante os quais obrigava os mais fracos e famintos a ceder suas terras em troca de comida para sobreviver até o próximo ano de vacas gordas. Estes se tornaram, assim, servos do chefe da tribo. A maioria deles, como simples trabalhadores da terra, mas alguns também como guardas e guerreiros dispostos a defender a propriedade do chefe com suas próprias vidas em troca de um salário melhor e alguns pequenos privilégios.
A partir de certo ponto, as próprias tribos começaram a comprar terras uma das outras e a lutar entre si. Um dia, a tribo mais rica e mais agressiva dominou as demais e seu chefe se tornou Alorus, o primeiro rei de Babel. O rei Alorus, de acordo com a tradição, foi também o inventor do dinheiro e do comércio marítimo. Seus descendentes conquistaram gradualmente as terras vizinhas e colonizaram ilhas do Mar de Tétis, dando origem ao Império Khari, também chamado Acadiano.
De alguma forma, os mercadores de Babel, transmitiram o conceito de Estado, propriedade e dinheiro para o outro lado do Mar de Atlas. O segundo império a surgir parece ter nascido em Antília, um centro comercial insular que desenvolvera intensos laços comerciais com o Império Acadiano e cujos habitantes, descendentes de senzares e lemurianos, vieram a ser conhecidos como tlavatlis. O Império Tlavatli estendeu seu poder sobre Antília, as ilhas vizinhas, as costas ocidentais do Mar de Atlas e o sul de Ruta. Nessa ilha que, cerca de 1.500 anos antes da data convencional de início da cronologia atlante, foi fundada a primeira cidade de Atlântis. O nome tem origem na língua tlavatli, na qual significa "castelo das águas", referindo-se às fontes exuberantes que ainda hoje abastecem a cidade imperial. O nome é semelhante ao dado ao grande monte Atlas ("lugar das águas"), ponto culminante da ilha (6.715 m), cujas encostas também são encontradas inúmeras fontes de água quente ou fria.
O Império Senzar surgiu pouco depois, ao que parece originado por uma liga defensiva formada pelos habitantes das terras ocidentais para se defender das tentativas de conquista pelos tlavatli. Aproximadamente na mesma época, um chefe da tribo hiperbórea de Agartha, que a lenda chama de Wotan, afirmou seu domínio sobre as tribos vizinhas e proclamou-se rei. Porém, a maior parte dos hiperbóreos, incluindo o sumo-sacerdote de Thule, recusaram-se a reconhecê-lo como seu líder. Por muitos séculos, o reino de Agartha, também conhecido como Asgard, não passou de um Estado pobre, pequeno e bárbaro, com a pretensão um tanto megalomaníaca de superioridade em relação a seus vizinhos.
Alguns anos antes do início da cronologia oficial atlante, subiu ao trono de Babel o Imperador Dagon, que dispondo de novas tecnologias de guerra naval, decidiu estender suas colônias pelo oceano. Rompeu uma antiga aliança com o Império Tlavatli para invadir as ilhas de Daitya, Gopa e Ruta.
Ao que tudo indica, a conquista do já relativamente antigo "castelo das águas" tlavatli pelos primeiros acadianos que desembarcaram na ilha de Ruta é o ponto de origem da cronologia oficial da cidade de Atlântis. Fazendo-se a correspondência entre a antiga cronologia acadiana e a atlante, verifica-se que a data da invasão coincide aproximadamente com o tradicional Ano 1 da Fundação de Atlântida. O Posêidon da lenda tradicional é provavelmente uma metáfora do Imperador acadiano, então o mais poderoso soberano do mundo: o nome Posêidon, em acadiano arcaico, pode ser interpretado como "senhor da terra". Sua união com Clito ("a senhora") representa a união dos conquistadores acadianos com mulheres nativas de origem tlavatli.